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Entrevista: Louis-Albert De Broglie sobre venda da Comporta

O príncipe francês que quer comprar a herdade da Comporta questiona o processo de venda do complexo. Em entrevista ao Observador, Louis-Albert de Broglie fala em “falta de transparência” e amadorismo.

Texto de José Pedro Mozos

Louis-Albert de BroglieA venda da Comporta tem sido um processo marcado por avanços e recuos desde o momento inicial. Depois de um período de apresentação de propostas de compra, houve três que acabaram por seguir em frente: a do consórcio Victor de Broglie/Global Asset Capital Europe (liderado por Louis-Albert de Broglie), a do consórcio Oakvest/Portugália/Sabina e a do grupo de investidores liderado por Paula Amorim e pelo milionário francês Claude Berda. O consórcio de Broglie e a Oakvest optaram por afastar-se, deixando Paula Amorim sozinha na corrida. Mas nenhum deles concede derrota, porque o jogo ainda não acabou.

A Gesfimo, que está a liderar o processo de venda, optou por escolher a proposta da Oakvest/Portugália numa primeira fase, mas a decisão não passou pelo crivo da Assembleia-Geral, onde os representantes da Rioforte e do Novo Banco, que ainda detêm ações deste complexo, vetaram a decisão a 28 de julho. O processo voltou para trás e aceitaram-se melhorias às propostas até aí apresentadas. Louis-Albert de Broglie, filho do duque de Broglie, que chegou a ser ministro de Charles de Gaulle, recorda todo este processo e lembra-se de ter sentido que havia uma nova oportunidade. Na verdade, explica, nunca desistiu. E esse é um dos seus trunfos.

No fim de julho, aumentou a sua proposta, passando-a de 115 milhões para 159 milhões de euros. Este novo valor, associado a um projeto que aposta na agricultura biológica, em salas de conferências, em ambiente, educação e até em eco-hotéis, emprestou à proposta  uma nova pujança. No entanto, o processo não foi propriamente facilitado, como explica Louis-Albert de Broglie nesta entrevista ao Observador. Depois de algumas reviravoltas, está neste momento fora da corrida, já que não entregou até ao dia 20 de setembro – data limite – os documentos que tinham sido requeridos pela Gesfimo por considerar que não tinha tempo suficiente para recolher toda a informação necessária. “Na verdade, fui empurrado para fora da corrida, não desisti”, conta. Para já, vai aguardar pela próxima assembleia-geral, que vai deliberar sobre a proposta de Paula Amorim, a única que foi entregue dentro do prazo estipulado. Depois, logo se vê. “Utilizarei todos os recursos ao meu dispor se for necessário”, avisa.

Que expetativas tem para a Assembleia-Geral que vai analisar a proposta do consórcio Amorim/Vanguard?
Penso que eles devem primeiro analisar a transparência de todo este processo.

Mas espera algum recuo da parte da Gesfimo para poder voltar a aceitar propostas?
Sendo este assunto tão sensível, acho que todo o processo deve ser cumprido com rigor, para não ser alvo de críticas.

Se esse recuo não acontecer, e tendo em conta que já afirmou que o processo fica manchado pela falta de transparência e pelo pouco profissionalismo, o que pretende fazer?
Primeiro vou esperar para ver o que a assembleia-geral vai decidir.

Mas admite levar este processo para os tribunais?
É muito cedo para dizer isso. Mas utilizarei todos os recursos ao meu dispor se for necessário. Aliás, dissemos isso mesmo, que reservávamos todos os nossos direitos.

Até ao último minuto do prazo limite recebeu alguma resposta sobre as questões que lhes colocou relativas à falta de condições que lhe deram para submeter a proposta?
A Delloite [que foi contratada pela Gesfimo para agenciar o processo de venda] comunicou connosco, pela primeira vez, no dia 7 de Setembro pelas 18h30 e, mais tarde, nessa mesma noite, foi-nos enviada a process letter. O que significa que só teríamos oito dias úteis para cumprir com as due diligences, a análise fiscal e legal deste processo, que é complexo. Isto, só por si, já não precisa de comentários, exceto que não é sério para uma prestigiada consultora pedir a um potencial licitante — que já esteve presente noutras fases do processo, incluindo quando foi gerido pelo banco Haitong, em outubro de 2016 — que responda a tão sérias responsabilidades em tão curto espaço de tempo, já que envolve, obviamente, outras empresas com responsabilidades fiscais e legais e a necessidade de firmar compromissos legais a nível de administração internacional. Eles saberão, necessariamente, que uma proposta séria exige trabalho prévio adequado e não pode ser feito em tão pouco tempo quando se trata de confirmar uma licitação de 160 milhões de euros.

E não obteve resposta quando lhes fez chegar esta sua posição?
Não, nenhuma. Enviei uma carta a dizer que isto não era sério e que o tempo que nos davam não era suficiente. Mas não nos responderam.

E antes já o tinham feito assinar o waiver, um documento que o impossibilita de recorrer da decisão?
Sim. Tive de assinar esse documento. Na altura estranhámos que nos fosse pedido, mas aceitámos. Embora tenhamos duvidado, assinámos. Quando se é um investidor temos de arriscar. Mas quanto ao tempo que nos deram para cumprir com as due dilligences já não podíamos seguir esse raciocínio. E eu enviei uma carta a dizer isso mesmo, que era impossível avançar desta forma. Nunca nos foi explicado o porquê da urgência e quando falei disto a outras pessoas todas acharam que era demais. Riram-se e disseram-me que não é assim que se conduz um processo desta índole. E foi o que dissemos: não conseguimos apresentar uma proposta. Claro que não o fizemos nestes termos, usámos a linguagem jurídica.

Então desistiram?
O que me espanta é que a imprensa tem, de facto, escrito isso. Em todos os jornais se lê que eu desisti. Mas na verdade eu não desisti: fui empurrado para fora da corrida. É isso que tem de ficar claro. Eu não desisti, as condições que nos ofereceram é que não foram sérias. Pedir a alguém para fazer as due dilligences em oito dias úteis não é sério. Nós fomos expulsos de um processo manchado pela falta de transparência. Esta é a realidade. Suspeito até que a falta de transparência é a chave para entender muitas coisas neste processo.

Louis Albert de Broglie_ObservadorMas porque é que tem essa ideia tão firme?
Porque há explicações que nunca nos foram dadas. E é necessário que as pessoas saibam isso. As pessoas de Portugal, porque isto é um assunto nacional, e em especial as da Comporta. Assim como a Rioforte, a Caixa Geral de Depósitos e o Novo Banco merecem saber os detalhes do processo. Todos estes agentes merecem um processo transparente.

E por que razão continuam a lutar tanto por este processo? Porque é que é tão importante ganharem este processo da Comporta?
Nós acreditamos que estamos a fornecer uma visão real daquilo que pode ser o ecossistema adaptado aos novos desafios do século XXI. Sobretudo no que diz respeito à natureza , à arte e à educação. No fundo, é um sistema integrado que agrega vários polos: a agroecologia; um centro de inovação low tech e high tech para incentivar a produção agrícola local; um centro de conferências, onde queremos organizar várias cimeiras com os maiores especialistas em saúde ou alimentação, por exemplo; um centro de arte; uma escola alternativa. Na verdade, queremos fazer da Comporta a Sillicon Valley verde.

Acha que as pessoas estão consigo neste processo? Sente isso?
Sim, completamente. Sei que as pessoas da Comporta estão do meu lado. Somos o melhor projeto para eles e eles sabem disso.

Caso não vença, admite colaborar com o consórcio vencedor?
Talvez. Depende de muita coisa. Eles teriam de aceitar uma série de condições que respeitassem os princípios que fundamentam a nossa proposta. Mas nunca se sabe.

O consórcio da Portugália também não entregou a proposta até ao dia 20 de setembro. Quando fala com eles, se é que fala, também lhe transmitem esta ideia de que este não foi um processo justo e transparente?
Nós falamos sim, mas não me compete a mim estar a comentar o que esse consórcio pensa sobre o processo. Sei que não estão satisfeitos com o desenrolar do processo, mas são questões internas que lhes dizem respeito a eles. Tem de lhes perguntar. Mas acho que é claro para eles, como para nós, que este não foi um processo claro nem profissional.

Parece muito convicto.
Este processo devia ser gerido por uma instituição profissional, em primeiro lugar. Ou um banco ou uma entidade pública. Hoje em dia até é mais comum que seja um banco. Por isso, para nós foi muito estranho ver a assembleia-geral da Gesfimo a entregar este processo à Delloite. E até se nos pusermos na pele da Delloite não conseguimos compreender a decisão. Entrar num processo destes, nesta altura e com estes contornos não nos parece uma decisão muito inteligente. Não estou  a culpá-los nem a questionar legalmente esta decisão. Mas tenho a minha experiência e o meu conhecimento, que me permitem fazer esta análise. Houve desde o início alguma falta de profissionalismo. E é impossível trabalhar assim. Ou então há algo por detrás que não sabemos.

Acredita que pode haver algo além do amadorismo que identifica?
Acho que foi sobretudo falta de preparação. Eles claramente não estavam preparados para ter este processo em mãos. Foram sempre educados, mas muito mal preparados.

Qual é o próximo passo do Louis-Albert de Broglie?
O meu próximo passo é esperar. Vamos ver como se desenvolve o processo, porque a corrida ainda não acabou e não sabemos como vai acabar. Nem sabemos em que sentido vão votar. Será que a Rioforte e o Novo Banco vão votar favoravelmente e aprovar um processo opaco, que não foi claro? A Caixa Geral de Depósitos, como banco público que é, vai aceitar este processo? Não sabemos. Portanto é aí que estamos. Vamos esperar enquanto continuamos a aprimorar este nosso projeto.

 

Artigo publicado no Observador no dia 28 de Setembro de 2018.