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"É nossa missão criar um ecossistema exemplar onde a economia e a ecologia se unem de forma a preservar o território e a população"
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Louis-Albert de Broglie
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Entrevista: Louis-Albert, o príncipe jardineiro com grandes sonhos para a Comporta

O príncipe francês Louis-Albert de Broglie é conhecido como o Príncipe Jardineiro, alcunha que provém do tempo em que Louis-Albert começou uma plantação de tomates em França. De lá para cá, mudou-se para Portugal, apaixonou-se pela Comporta e quer preservar a todo o custo uma área que, segundo o próprio, tem todo o potencial para ser uma espécie de Green Silicon Valley do Alentejo.

Para levar a cabo os seus sonhos para esta zona do Alentejo, Louis-Albert é um dos interessados na compra dos terrenos da Comporta. Estivemos à conversa com ele para saber mais sobre os seus planos.

Como surgiu a ideia de criar esta associação e qual a finalidade deste movimento?
Em primeiro lugar, pretendemos chamar a atenção do público em geral e das partes interessadas para a enorme fragilidade deste ecossistema muito especial onde a Comporta se insere — nomeadamente, junto a três reservas naturais, em frente ao oceano.

Por outro lado, pretendemos sugerir a criação de um ecossistema integrado que, baseado no tríptico Natureza, Arte e Educação, poderá́ servir a economia do território e a população, e que se propõe a enfrentar os desafios globais ao nível do ambiente.

A Comporta deve ser uma “montra” que expõe as grandes questões globais que se colocam ao nível do ambiente, sociedade e cultura. E deveria vir a servir de exemplo para todo o Alentejo, Portugal e para Europa.

Por que escolheu a Comporta? Conte-nos um pouco da sua história e do que o trouxe a Portugal, especificamente a este lugar.
Eu vim pela primeira vez à comporta há́ 25 anos, graças a amigos. Desde então achei esta região muito comovente e sempre me deu imensa energia. Em 2010 consegui arranjar uma casa em Brejos da Carregueira e decidi, em 2013, mudar-me para Portugal. Consigo ir vivendo aqui em permanência e manter-me fiel as minhas convicções que são um compromisso para a vida: a Natureza, a Arte e a Educação.

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“Temos o objetivo de juntar especialistas, grupos, comunidades com bagagens culturais para transformar esta região do Alentejo numa espécie de «green Silicon Valley» que propõe soluções para os maiores desafios globais”
Louis-Albert de Broglie

Li numa reportagem sobre si que lhe chamam o Príncipe Jardineiro. De onde vem o apelido?
Essa alcunha surgiu depois de ter começado há uns anos, em 1993, uma plantação de tomates que veio a ser classificada em 1997 como Conservatório Nacional do Tomate (em França) onde cultivo, hoje em dia, 700 variedades de tomates. Desde então, fundei uma marca chamada “Le Prince Jardinier”.

Qual é a sua visão para a Comporta? Daqui a 5 anos será um sítio para todos ou só para quem tenha dinheiro?
Um poderoso ecossistema que irá abordar as questões ambientais, sociais, culturais e arquitetónicas trazendo projetos concretos para demonstrar a eficiência de uma economia baseada na ecologia, ou seja:

  1. Um centro de agroecologia, agroflorestais inspirado na permacultura que virá a trazer um grande número de especialistas, estudantes, conferencistas, vinculando-o com as principais universidades (ISA em Lisboa, Escola Superior Agrária de Coimbra, Évora, Lisboa, etc…)
  2. Um centro de inovação de high e low technology que trabalha a alimentação, levando a que haja mais startups a envolver-se nesta área onde encontram uma quinta ecológica. Um centro que se propõe a trazer grandes especialistas e a atrair famílias a fixar-se na região.
  3. Uma escola alternativa inspirada na “Bali Green School” ou Waldorf, Montessori…
  4. Um centro de arte inspirado na “Arca de Noé” que se propõe a criar uma linguagem entre gerações e que atrai mais artistas a viver na zona.
  5. Um centro de Media Medicine e consciência de bem-estar que pode vir a transformar-se numa plataforma para esta grande revolução na saúde que vai implicar ter mais especialistas a viver na região.
  6. Centro de Transformação, Inovação e Economia Circular que será um laboratório de inovação na transformação de resíduos.
  7. Um centro de conferências, um Ágora, para receber conferências mundiais de assuntos de relevo como “oceanos”, “alimentação e saúde” e apresentação de estudos académicos sobre a economia deste ecossistema integrado que nos propomos criar.

Naturalmente, temos o objetivo de juntar especialistas, grupos, comunidades, que têm diferentes bagagens culturais e representam múltiplas áreas de especialização de forma a transformar esta região do Alentejo numa espécie de “green Silicon Valley” que propõe soluções para os maiores desafios globais.

Quanto à calendarização, acreditamos que levará um ano a trabalhar na mobilização de todo o tipo de empresas, ONGs portuguesas e instituições internacionais para construir os centros, incluindo financiamentos que lhes são inerentes, e depois pô-los em prática com pessoas que se deslocam para esta região e que passam a viver aqui em permanência e a isso se chama uma economia sustentável!

Em cinco anos, poderá haver até 200 famílias que partilham uma mesma visão para este lugar incrível.

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Na sua opinião, os portugueses têm consciência ambiental? Preocupam-se com o meio ambiente?
Sim, acredito que sim. Há muitos projetos incríveis como o Portugal Carbono Zero em 2050, o Compromisso para o Crescimento Verde (2015-2030), o Plano Nacional de Gestão de Resíduos (2014-2020), o PERSU onde Portugal se propõe a atingir uma taxa de reciclagem de 50% a nível de resíduos municipais em 2020.

Em todo o caso, precisamos de mais projetos transversais que demonstrem que tudo é possível e deve ser feito com um sentido de urgência quando reconhecemos o flagelo das alterações climáticas tais como o aumento global da temperatura, o desprendimento e redução dos glaciares, a destruição dos solos, o colapso da biodiversidade, a acidificação dos oceanos, os fenómenos extremos (incêndios, tornados) e o impacto da produção de dióxido de carbono e outros gases.

E o Estado português? Faz o suficiente pelo ambiente ou corremos o risco de ver a Costa Alentejana transformada noutro Algarve?

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Eu calculo que, tal como qualquer outro Governo, o português é pressionado ao nível de metas e de ações com uma necessidade de retorno a longo-prazo, e esse é o princípio da ecologia, um ecossistema que é autónomo e resiliente.

Os erros passados ainda não estão claros na cabeça das pessoas, o que é perturbador de um ponto de vista de senso comum, por isso isto deve ser mais enfatizado com a pedagogia que deve incidir sobre o que pode vir a ser feito.

Como exemplo, nós assinámos um acordo com as autoridades francesas (Caisse Dépôts e ICADE) para o projeto do 9º distrito de Versalhes que mostra que o presidente da Câmara de Versalhes tem um claro entendimento sobre o que é importante.

Na sua opinião, os projetos turísticos podem ser positivos? De que forma?
Se for um turismo responsável, sim. Mas isso também precisa de pedagogia associada e coragem para alcançar um projeto de baixa densidade, que proteja o ambiente e a sua extrema fragilidade.

Acha que temos em Portugal bons exemplos que juntem desenvolvimento à preservação ambiental? Quais?
Existem alguns exemplos muito inspiradores da arquitetura paisagística em Portugal que proporcionam importantes lições sobre como harmonizar o desenvolvimento urbano com a preservação ambiental. Por exemplo, o Corredor Verde de Lisboa, entre o centro da cidade e o parque de Monsanto, mostra como interligar áreas urbanas e florestais. O Parque da Cidade do Porto traz para o centro da cidade uma extensão bucólica da natureza por meio de uma maneira muito gentil de gerir florestas seminaturais e pastagens. No Alentejo, o Centro de Educação Ambiental Vale Gonçalinho, da Liga para a Proteção da Natureza, demonstra como é possível conciliar a agricultura tradicional com os serviços de ecoturismo e educação.

Tem algum comentário a fazer relativamente à reação de José Cardoso Botelho, da Vanguard Properties, que diz ser inoportuna a vossa iniciativa?
Eu gostaria que ele ouvisse e percebesse que todos nós deveríamos preocupar-nos com as próximas gerações. Para o fazermos, podemos olhar para exemplos em todo o mundo e ver que temos que mudar o paradigma do desenvolvimento económico. Isso merece trabalho e humildade e tenho a certeza que, se ele passasse algum tempo com a nossa comunidade de ecologistas, economistas, ele entenderia e partilharia da mesma visão sobre os desafios e as soluções. Ficarei feliz em recebê-lo para uma troca de opiniões.

Artigo publicado no Greensavers no dia 20 de Setembro de 2018.