ComportaUtopia
Testemunho
Manuel Higgs Morgado

Manuel Higgs Morgado

Arquitecto, especialista em Eco-Arquitectura

Num cenário em que a acelerada desertificação dos meios rurais contracena com a excessiva centralização metropolitana, torna-se urgente não só reinventar as cidades, mas também todo o funcionamento biofísico da sociedade no território.

Apostar numa Utopia para a Comporta não é apostar num oásis no deserto. É apostar numa nascente que incrementará as dinâmicas interurbanas entre Grândola, Setúbal, a Península de Tróia e até Lisboa e o interior Alentejano e Ribatejano. É apostar numa ponte entre urbanidade e ruralidade que diminuirá as assimetrias através de uma causa comum mutuamente benéfica, ou seja, o desenvolvimento sustentável das sociedades e comunidades que habitam e que visitam este singular lugar do litoral alentejano.

Se a ideia de uma sociedade simbiótica – que fomente os ecossistemas com que se relaciona e de que depende, ao invés de os destruir – não é compatível com o padrão de vida actual, mais urgentes se tornam projetos como o Comporta Utopia. Isto porque, para que se encontrem alternativas à realidade urbana actual é necessário (re)inventar modos de vida: aprendendo com o passado a sonhar o futuro.

Afinal de contas, poderão a agroecologia, as tecnologias de informação e automação, as energias renováveis ou a inovação de tecnologias à base de materiais naturais desencadear uma Renascença Rural?

Partilhando características estruturais com vários projectos congéneres, o Comporta Utopia é uma proposta de consolidação de estratégias reunidas entre vários casos de estudo de desenvolvimento regenerativo e sustentável – tantos deles já com provas dadas a nível nacional e internacional e que poderão consultar no site do projecto.

Saliento ainda o irrepreensível carácter pedagógico desta iniciativa que dará origem a uma entidade promotora de metodologias interdisciplinares através de uma abordagem holística do conhecimento.

Sabendo que os domínios culturais e científicos se interpenetram no momento de estudar de forma integrada as dinâmicas de coesão social,  adequação ecológica  e resiliência económica – tão urgentemente pretendidas no paradigma civilizacional actual –  torna-se inegável que este tipo de pesquisa deva ser conduzida num cenário de contacto directo com os recursos naturais, sociais e financeiros que permitam o explorar destes percursos de investigação de modo não somente teórico.

Desta forma, através de uma academia enraizada no lugar e nas comunidades que serve, surgirão os maiores benefícios inerentes à epistemologia deste projecto e ao seu radical comum – a Sustentabilidade Humana e da Vida, no Todo – o bem-maior a preservar.

Pela Comporta e por uma utopia pragmática, onde os imaginários comuns se podem tornar realidades partilhadas e tangíveis. Um bem-haja a todos!